2012/05/27

Branco

Eu deveria deixar linhas não-escritas
E, nos poucos papéis manchados
Embrulharia presentes, sonhos, passados...
E nada, além disso, seria como quis;
Como, de certo, só eu o sei.

Eu deveria deixar caminhos não-traçados
E, no pouco tempo que me restasse,
Percorria, em sonhos, outros mundos;
Em profundos devaneios
Que, de certo, só os meios para me perder.

Quando acordado racionalizando um por quê
Para caminhar por onde abandonei,
Para escrever as linhas em branco,
Me pego em tantos outros motivos contrários
Que, de certo, como só eu sei, não há meios para esquecer.

Eu apenas deveria deixar tudo em branco;
Passar em branco minha vida.
Aí sim saberia que foi bem vivida,
Sem alterar nada nem ninguém ao meu redor.
Ou melhor, sem sujar o existir.

2012/05/21


"Só na harmonia da música, nas rítmicas cadências da melhor poesia ou nas linhas de uma grande obra de arte, pode a alma humana apanhar um vislumbre do verdadeiro amor nos degraus superiores do plano astral. Essas coisas dão às vezes à alma alguns indícios, embora fracos, do que a alma realmente experimenta naqueles elevados planos de existência. E é esta uma das razões porque a música, a arte e a poesia nos elevam acima do ambiente material em que nos achamos."

A vida depois da morte, Yogue Ramacharaca
Cap. XIV, Os companheiros do astral

2012/04/17

Superficial

Ontem eu buscava uma razão por que ainda não encontrei o que busco. Por mais que eu olhe no fundo do lago e nele veja refletido o fundo dos meus olhos, neles só vejo refletida a superfície de minha alma rasa, sem um simples sinal, uma simples dica daquilo busco.

Quem sabe já não o tenha encontrado, mas pelo erro de não o saber, não entendi que era exatamente aquilo? Acho difícil encontrar algo que não se sabe o que é, buscar então parece-me impraticavelmente impossível... mas continuo, não tenho opção; meu corpo anseia, minhas mãos suam, minha mente chega a exacerbar-se e meu coração então parece querer saltar pela boca. Isso tudo ao simples pensar que sei, que busquei, que encontrei.

Mas nunca o é. Como disse, talvez até fosse, mas como poderia eu saber?

O que será que busco? Poderia ser o “amor”? Ah, o agradável, belo, perfeito enamorar-se, encontrar alguém por quem valha a pena abandonar sua própria razão, por quem viver sem medos e rancores, sem dores, longe de todos e de tudo o mais, queria eu ser capaz de abandonar os frutos do mundo tendo em troca apenas um coração cheio de alegrias, um sorriso sincero ao amanhecer, uma só pessoa que conseguisse encarnar todas as necessidades do meu ser.

Quem sabe fosse até possível encontrar alguém assim; e, talvez, já até tenha encontrado. Mas, pobre de mim, nem sei se é isso que procuro.

Quem sabe fosse a “razão”? Um saber tão forte e superior que me fizesse abandonar as dores do coração e sorrir apenas por me reconhecer como sou; um incrível poder de intelectualizar, racionalizar, recordar todas as ações – minhas e de outros – mas se disso fosse capaz, o que seria de mim? Com certeza não viveria assim, quiçá nem mais viveria, já que tudo pensaria saber, saberia tanto que entenderia a não existência do meu ser e simplesmente me abandonaria para permitir que algo bem maior, mais importante, canalizasse essa energia e pusesse em movimento algo ou alguém que saiba o que quer, diferente de mim que continuo a buscar o que buscar.

Não sei o quê, pensei até que poderia ser a “dor”, mas não! Essa, diferente da razão e do verdadeiro amor, certamente já encontrei diversas vezes. Já senti, já vivi, já superei e tornei a encontrar. Com ela, na verdade, acho que é o contrário o que acontece: é ela que me busca sem parar, me faz desacreditar e até mesmo esquecer as certezas que penso ter.

Como aquela vez que pude desviar meu olhar e ao invés do meu olhar, refletido no lago, pude ver o universo; Uranos a me abraçar com todo o seu carinho e Gaia a me sustentar, ambos sussurrando em uníssono, com minha própria voz, aos meus ouvidos: “Não olhe para dentro até que entenda toda a profundidade do universo”.

Não entendo como seria capaz, todo o universo em um só ser, o infinito em um, o infinito para um é algo descabido, a menos que se esteja pré-entendido que o um é o todo e o tudo não é nada mais que o nada.

Mas isso não consigo ainda entender... além do que, meus olhos – os quais o lago reflete – apenas refletem a superfície do meu ser. E o meu ser, esse sim, talvez soubesse responder todas essas perguntas. Quem sabe um dia eu o venha conhecer.

2011/10/31

"(...) Entretanto agora a visão de cada homem o alegrava e comovia, amava as crianças que brincavam e iam à escola, e amava a gente velha que sentava em bancos diante de suas casinhas, aquecendo ao sol as mãos enrugadas. Quando via um rapaz perseguir uma menina com o olhar apaixonado; ou um operário num dia de descanso, que, saudoso do lar, carregava nos braços suas crianças; ou um médico fino e inteligente, que silencioso e apressado conduzia seu carro e pensava em seus doentes; ou também uma prostituta pobre e malvestida, que à noite aguardava sob um poste de luz, e mesmo a ele, ao renegado, oferecia seu amor, então todos esses eram seus irmãos e irmãs, e cada um trazia em si a lembrança de uma mãe amada e de um passado melhor ou a marca familiar de uma determinação mais bela e mais nobre e cada um lhe era simpático e digno e dava-lhe motivo para reflexões e ninguém era pior do que ele próprio se sentia."

Augusto, Hermann Hesse

2011/10/07

"A Verdade e a Justiça nada sofrem por não serem praticadas, quem sofre são os que delas se afastam. A luz nada sofre por alguém se afastar da sua presença, simplesmente os que tal fazem ficam às escuras. Nada sofre nosso Deus Serápis e o génio divino encarnado na sua Estátua Sagrada: este fica, na realidade, relevado e finalmente livre do serviço que prestou durante centenas de anos e pelo qual devemos sentir uma profunda gratidão. Simplesmente sua luz de bondade e harmonia não mais poderá ser projetada neste mundo... e se esta é a verdade do génio que agora está libertado, a verdade do Deus Serápis é que Ele é a Luz do Mundo e esta não cessará até que o mundo inteiro seja consumido pelas chamas do final de um ciclo; e nem sequer depois, pois para lá das gradações da Luz e sombras na pirâmide da Natureza, para além do relativo, Luz Absoluta é Obscuridade Absoluta. Esta luz arde no coração humano e não cessará enquanto o homem, em qualquer tempo e lugar, esteja verdadeiramente em marcha para Deus, qualquer que seja o nome que se lhe dê ou a forma em que se o perceba."


Viagem iniciática de Hipátia, José Carlos Fernández
Cap. VIII, Destruição do Templo de Serápis

2011/08/23

"Na Iniciação as verdades vivem-se; no plano filosófico amam-se, compreendem-se e chegam a ser intuídas; na religião, através dos símbolos e do véu da alegoria, as verdades sonham-se."

Viagem iniciática de Hipátia, José Carlos Fernández
Cap. V, Hipátia, Discípula de Plutarco em Atenas

2011/08/16

Nalgum lugar

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
De qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(Tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(Não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

Edward Estlin Cummings 
(traduzido por Augusto de Campos)

2011/08/08

"O que tem a ver a "verdadeira sabedoria da alma" - disse tristemente o sacerdote - com professar a religião cristã, ou a hebraica ou ser fiel dos mistérios de Osíris ou de Cibeles? Qualquer destas religiões ou dos ensinamentos dos filósofos, na sua quinta-essência, é sabedoria da alma. Se falamos de "verdadeira sabedoria da alma" temos que nos referir à Religião da Sabedoria, ou seja, aquela que rende culto à Luz espiritual na alma humana, aquela que ilumina a Alma de todas as religiões, desde o núcleo interno das Escolas de Mistérios. Esta Religião da Sabedoria é o pacto entre os Deuses e a Humanidade, o verdadeiro Arco-Íris que estabelece a ponte entre a Terra e o Céu; e os seus fiéis, todos os sábios e santos "que no mundo foram", em qualquer das religiões passadas e presentes. Esta é a verdadeira Igreja ou Congregação, a verdadeira "Fraternidade do Espaço" e da qual todas as comunidades de crentes de qualquer credo não são mais do que sombras disformes."

Viagem iniciática de Hipátia, José Carlos Fernández
Cap. III, Iniciação de Hipátia no Templo de Philae

2011/07/31

Eu menino

Sempre sonhei que um dia encontraria meu Destino, mas esse menino me vive fugindo entre os dedos como se minha existência fosse para ele uma simples brincadeira. Talvez queira me fazer entender algo... Talvez ele tenha algo a me dizer... às vezes ouço em minha mente um sussurro que não hesita ao afirmar que nada nesta vida tem valor, tudo é efêmero... que nada nesta vida é real, tudo é provisório... que nada nesta vida tem amor, tudo é amor.

Ainda não sei, mas queria ao menos uma vez encontrá-lo e perguntar então, cara a cara, para onde os sonhos se vão... será que há um lugar onde tudo se encontra?.. E se, um dia, deixar de sonhar para onde irá meu coração, perderá a direção ou simplesmente não terá condição de continuar a bater? Alguém sabe dizer?

Não?! Talvez o Destino... mas não encontro esse menino.

Ouvi dizer que ele estava se escondendo em um lugar que só me é frio: a minha própria sombra. Aqui, sempre comigo, e que quando me permito posso ouvi-lo sussurrar um caminho a seguir. Se assim for, quanta ousadia!, estar à mostra assim, em plena luz do dia. Isso seria bem a cara dele mesmo, mas não sei, ainda não o consigo enxergar.

Ele, eu sei, me observa... a cada momento, cada passo, cada dia que se passa; enxerga cada dor em meu coração e cada dúvida em minha mente. Será que se sente contente? Ou será que se fere com as minhas feridas? Ou será ainda que é capaz de cair doente como qualquer outro menino que se arrisca por uma aventura, um momento de alegria qualquer?

Arriscar-se-ia em perder o poder de ser quem é simplesmente para acompanhar-me ou sou ainda muito pouco? Se é que me sente, compreende, por que não me explica como seguir? Por que não diz simplesmente o que preciso fazer?

“Ele diz”, dizem-me... O menino, Destino – dizem-me – fala-me sempre através dos sinais que coloca em meu caminho... e nunca se afasta. Nos momentos em que perco a consciência de quem sou ele ganha a possibilidade de viajar distante, mesmo que por instantes, pode se libertar e se quisesse poderia até não voltar... mas na verdade, ele nunca vai aonde quer, tão preocupado que é, vai somente me buscar, me trazer de volta ao meu lugar.

É uma criança diferente, esse tal Destino, não brinca, só trabalha... e eu, que pensava ser adulto, agora busco compreender que há uma criança tentando alcançar meu peito, tentando me ensinar... realmente, devo estar muito perdido. Ou o mundo deve estar muito errado do jeito que está... uma criança a me ensinar, a me seguir, a me falar... e eu sem ao menos conseguir ouvi-la.

O mundo deve estar muito errado... Nada deve estar no lugar... Muito menos eu... que nem ao menos sei quem sou. Mas quem seria eu se dissesse se sim ou se não? Quem seria eu se conseguisse me decidir entre um lado ou outro? Quem seria eu se soubesse escolher o caminho a seguir? Quem seria eu se soubesse quando estou certo ou errado? Talvez – e isso é algo que só me ocorre agora – me tornasse meu próprio Destino. Eu, que sonho!, seria ainda menino, com toda a força no coração e toda a certeza que a inocência permite.

Seria eu Destino, seria eu menino novamente a me dizer: renasce, cresce, sonha, vive. A cada dia.

2011/07/28

"(...) Negras nuvens avançam desde o horizonte, mas ainda não chegou a hora da tempestade... E quando esta chegar nada temeremos, mas na violência dos acontecimentos trataremos de fazer o melhor... e, quem sabe, talvez a nossa alma sorria no meio de um mar de dificuldades e angústias, como faz um valente e experiente capitão desafiando a tempestade."

Viagem iniciática de Hipátia, José Carlos Fernández
Cap. I, A chamada do destino